segunda-feira, 14 de novembro de 2011

É isto um homem?

“É isto um homem?”, de Primo Levi, mostra a precaridade da alma humana e como esta é capaz de perecer em situações de extremo sofrimento e dor

Primo Levi, escritor italiano, cujo corpo físico sobreviveu a Auschwitz, mas talvez a alma não.

No livro É isto um homem?, publicado em 1947, o escritor italiano Primo Levi narra os momentos que passou em Auschwitz, campo de concentração nazista, como prisioneiro judeu. A violência surge como um dos grandes temas do livro, manifestando-se de todas as formas possíveis, inclusive das mais degradantes e inimagináveis. A violência transita nas entrelinhas da narrativa como algo constante e, acima de tudo, normal. Levi disseca a violência humana e mostra como essa de fato passou por um processo de banalização, como diz a filósofa e pensadora política Hannah Arendt.

O relato de Levi é pungente, forte, em alguns momentos dilacerador e perpassado por um horror quase inacreditável. O título do livro “É isto um homem” se justifica ao longo de toda narrativa na qual o autor parece se perguntar a todo momento se tanto os prisioneiros do campo de concentração quanto os carrascos, chamados de “kapos”, são de fato homens, haja vista o alto grau de degeneração da mais profunda e intrínseca humanidade presente em cada um deles. O carrasco perde grande parte da sua humanidade mesmo antes dos prisioneiros judeus, deficientes, homossexuais chegarem aos campos de concentração.

Como mostra Levi, eles já haviam sido destituídos de toda sua humanidade e respeito para com o outro à medida em que assimilaram as ideias nazistas, o espírito de ódio contra seres humanos considerados inferiores e, por isso, merecedores não só de seu aniquilamento físico, como também da desintegração de sua própria alma. Já no caso dos prisioneiros, a rotina do campo de concentração, a fome quase constante, o frio, os maus-tratos, as humilhações de toda ordem, a incerteza quanto à própria sobrevivência a cada dia que começava, tudo isso ia aos poucos destituindo-os de alma, de qualquer espécie de espírito ou identidade. Os prisioneiros sequer tinham nomes, eram apenas um número tatuado nos braços. Sequer tinham história, a dor e o constante sofrimento foram capazes de fazer com que um pedaço de cada um deles perecesse nos campos de concentração.

Diante de tudo isso, a resposta para a pergunta de Levi pode ser sim afirmativa. De fato, era aquilo um homem. Basta pensar no fato de que o ser humano é uma espécie tão estranha e contraditória, tão falha e, ao mesmo tempo, tão exata. O homem é sim capaz de cometer atos de desumanização contra ele mesmo e contra o outro, é capaz de aniquilar sua própria alma, afinal, nenhuma natureza se mostrou ao longo da história tão precária quanto a natureza humana.

Desse ponto de vista, pode-se entender a obra de Levi, além de todo teor de violência que ela traz de forma implícita em cada momento da narrativa, em cada descrição assustadora e revoltante, como uma narrativa que além do terreno da violência avança para as raias da antropologia à medida em que discute o homem e seu caráter de humanidade e coloca em evidência a relação desse homem com o outro. O holocausto é o maior exemplo que se tem ao longo da história de ódio e preconceito exacerbado em relação ao outro, é o inverso de qualquer relação de alteridade, é uma situação de exceção onde não há qualquer sobra de respeito ou consciência, o que existe é apenas uma doutrina e uma ideia na qual os homens acreditam cegamente, doutrina que conduz à banalização da violência, ao aniquilamento de almas, ao empilhamento surreal de corpos físicos.

Durante a narrativa emocionada e pungente de Levi, fica também evidente a diferença que existe entre a destruição física e a destruição do caráter humano, daquilo que reside nas regiões mais internas, daquilo que se parece com lembranças, com sonhos, desejos. A pior morte no campo de concentração não era aquela que espremia e sufocava os prisioneiros nas câmaras de gás e sim aquela que ia tirando aos poucos cada pedaço de sua alma, cada ponta da sua esperança, a morte que ia apagando aos poucos a luz que ainda restava em cada olhar, deixando-os apenas opacos e cinzas.

Diante de tudo isso, os prisioneiros morriam antes da morte física propriamente dita. Depois de um tempo era só o corpo que vagava sem rumo, esmagado de fome, exposto e humilhado diante de si mesmo, dentro desse corpo já não havia mais nada. Se ele, por um lance de sorte ou por um olhar piedoso do destino, escapasse ileso, a alma com certeza não voltaria, esta já havia ficado pra trás. Isso explica porque muitos prisioneiros que sobreviveram aos campos de concentração dizem que a sensação que fica é a de que algo deles, algo de muito íntimo e profundo, foi perdido, deixando em seu lugar um vazio, uma sensação de angústia, um olhar sem o brilho de antes que apenas deixa transparecer cansaço e solidão.

A obra de Levi é forte o bastante para mostrar toda redução daquela matéria incorpórea e abstrata que faz do homem humano, tem um tom de denúncia e em alguns momentos um caráter até surreal. Algumas cenas parecem frutos da mais impossível ficção, verdadeiras obras de crueldade e loucura, histeria, neurose ou qualquer outra doença mental. As descrições são exatas e pormenorizadas, trazem uma riqueza de detalhes que vai esmagando pouco a pouco quem lê em sua própria visão egoísta e superficial do mundo e das coisas. De repente, as ações narradas em meio às descrições acordam quem lê para um estado de absurdo, para um surrealismo que deixa de ser devaneio e vertigem quando se mostra real no sutil caminhar da história.

A linguagem utilizada por Levi, como já dito, é bastante forte e em alguns momentos seca, o que dá a ideia de aproximação com a realidade dura e de extremo sofrimento do campo de concentração, onde não havia espaço para encantamentos ou elevações, tudo era exato, rígido, pragmático em um contexto no qual o homem esqueceu-se do próprio homem e se esqueceu de si mesmo como homem.

A narrativa é entremeada por ações que envolvem o leitor e, ao mesmo tempo, o perturbam naquilo que há de mais íntimo em cada indivíduo. A força e a contundência da narrativa fazem do livro uma grande obra literária que, apesar de não usar como recurso a ficção, já que os fatos narrados existiram de fato, parte de uma realidade tão absurda e esmagadora que excede a mais inimaginável das ficções. Com um forte tom histórico e também antropológico, o livro não é apenas um documento histórico, é mais do que isso, é uma obra literária de fato, como dito, que inclui em sua abordagem elementos históricos e antropológicos, mas que tem como objetivo principal contar uma história real revestida pelos véus da literatura, seja no que diz respeito à linguagem utilizada, seja no que concerne à construção da própria narrativa.

De qualquer forma, É isto um homem? aparece como uma leitura essencial para que se conheça, a partir de um olhar extremamente atento e minucioso, a realidade de um dos momentos mais terríveis da história mundial e também para que a partir dela se mostre que o homem já produziu grandes obras de violência, fazendo desta última seu reduto e salvação, já levou os ideias trágicos às mais impensadas consequências e já reduziu as possibilidade humanas a menos do que nada, a um grito mudo e desesperado, a uma indiferença louca e fria, tanto do lado de quem morre, quanto do lado de quem mata. É isto homem? reflete acima de tudo sobre o próprio homem, sobre sua incoerente e frágil existência, sobre seu egoísmo e soberba, sobre sua miséria e humilhação, é um reflexo bastante pessimista do quanto a alma humana pode apodrecer, restando apenas loucura e dor.

Estamos transformados nos fantasmas que havíamos deslumbrado na noite passada. Então pela primeira vez nos demos conta de que nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a destruição de um homem. Em um instante, com intuição quase profética, a realidade nos é revelada: chegamos ao fundo. Mais fundo que isso não se pode chegar: uma condição humana mais miserável não existe tampouco se pode imaginar. Não temos nada nosso: tiraram-nos as roupas, os sapatos e até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e caso nos escutassem, não nos entenderiam. Até mesmo o nome nos tiraram: e se quisermos conservá-lo deveremos encontrar dentro uma força arquitetada de tal maneira que, atrás do nome, algo nosso, algo do que um dia fomos, enfim permaneça.

Pois imaginem agora um homem a quem, além de suas pessoas amadas, roubem-lhe também a casa, os costumes, as roupas, tudo, literalmente tudo o que possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à necessidade, vazio de dignidade e de juízo, porque àqueles que perderam tudo ocorre que se perdem a si mesmos [...] (Capítulo “En el fondo”).

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